No Júlio Verne Centro de Estudos, a educação antirracista é prática diária: está nas aulas, nos projetos, nos murais e nas relações construídas

Do “não ser racista” ao compromisso diário: a política antirracista do Júlio Verne Centro de Estudos

“Não basta dizer ‘eu não sou racista’. A questão é: o que você está fazendo ativamente para combater o racismo?”. Essa reflexão inserida no livro “Pequeno manual antirracista, da filósofa e ativista Djamila Ribeiro, ecoa como um chamado à responsabilidade. Em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural, não há neutralidade possível: ou se combate o racismo, ou se colabora com ele pela omissão.

Nas escolas, esse chamado é ainda mais urgente. Se a educação tem o poder de formar olhares, sensibilidades e projetos de vida, então também tem o dever de enfrentar as desigualdades que atravessam a nossa história e o nosso cotidiano. No Júlio Verne Centro de Estudos, essa consciência se desdobra em algo muito concreto: uma política antirracista viva, cotidiana, que ultrapassa discursos pontuais e datas comemorativas. (inserir o link aqui)

Antirracismo não é evento: é prática diária

Ser antirracista não se resume a realizar ações isoladas em novembro, no Dia da Consciência Negra, ou em datas internacionais ligadas à cultura africana. Ser antirracista, para o Júlio Verne, é assumir um compromisso pedagógico, ético e institucional que atravessa o ano inteiro, todas as turmas, todas as áreas do conhecimento e todas as relações construídas dentro e fora da escola.

Isso se manifesta em decisões que vão desde o currículo até a forma como a comunidade é acolhida, passando por algo fundamental: quem está nos espaços de poder, de referência e de afeto. Não há política antirracista coerente sem a presença, a valorização e o reconhecimento de pessoas negras em todos esses lugares.

Por isso, o Júlio Verne entende que não basta falar sobre diversidade; é preciso garantir representatividade preta entre educadores, colaboradores e lideranças escolares, reconhecendo esses profissionais em sua competência, trajetória e humanidade, afinal, combater o racismo também é romper com estruturas que historicamente afastaram pessoas negras dos espaços de decisão.

Cultura afro-brasileira no centro do palco 

Uma das marcas dessa política é a forma como a escola escolhe enxergar e trabalhar a cultura afro-brasileira: não como um adendo folclórico, mas como fundamento da nossa formação social, estética e histórica.

A cultura afro aparece ali onde muitas vezes foi invisibilizada: no cotidiano. Está nas atividades extracurriculares, nas apresentações, nos projetos e nas expressões artísticas que os alunos protagonizam, especialmente em linguagens que nascem da resistência e da criatividade negra, como o breaking e o hip-hop. Essas expressões não são meros “temas especiais”, mas parte estruturante da identidade do colégio, presente nas principais apresentações e vivências culturais.

Da mesma forma, a capoeira ocupa um lugar de destaque: não apenas como prática corporal, mas como herança histórica, filosofia de resistência e celebração da ancestralidade. Ao valorizar essas linguagens, a instituição e reafirma constantemente a importância de reconhecer, honrar e aprender com as raízes africanas que constroem o Brasil.

A exemplo disso, o colégio abriu recentemente as portas para o Circuito Quebrada Viva nas Escolas, uma iniciativa organizada por coletivos de cultura urbana que dá protagonismo à cultura hip-hop.

 Beco da Cultura: quando o corredor da escola se torna aula de história e reparação

Ao caminhar pelo colégio, a política antirracista também ganha forma nas paredes. O Beco da Cultura é um mural que homenageia figuras negras fundamentais na luta por justiça e igualdade racial, com suas faces registradas em Graffiti.

Neste espaço, estudantes se deparam com a figura de Nelson Mandela e Martin Luther King Jr., símbolos internacionais de coragem, resistência e uma luta pela paz e pelo respeito que ainda precisa ser reafirmada diariamente. A imagem de Rosa Parks, mulher negra que se recusou a ceder o lugar em um ônibus segregado e desencadeou um movimento histórico pelos direitos civis, também está presente como símbolo de insubmissão diante das injustiças raciais.

Essas figuras aparecem como personagens que dialogam com a vida dos estudantes, convidando-os a pensar: “Que tipo de sociedade eu ajudo a construir com as minhas escolhas?”

Debate que envolve a escola inteira

Uma escola só pode se declarar antirracista se está disposta a ouvir, aprender, rever práticas e se abrir ao diálogo constante. Por isso, o Júlio Verne promove debates, rodas de conversa e palestras que não se limitam aos alunos: incluem também famílias, educadores, equipe técnica e toda a comunidade escolar.

O Sankofa – Educação Antirracista, evento que se inspira em uma filosofia africana voltada à reparação histórica valorizando o aprendizado com a trajetória do povo negro para transformar o presente é um bom exemplo dessa constância. Na ocasião, além da promoção de discussões acerta do racismo, a escola contou com uma rica exposição afro da artista plástica Ordalina Cândido.

Esses encontros têm uma proposta clara: tirar o racismo da invisibilidade, discutir privilégios, desmontar mitos e construir, coletivamente, outras formas de convivência. É uma pauta que interpela a todos, especialmente as pessoas brancas, historicamente beneficiadas por estruturas racistas. Aliás, como bem define o livro de Djamila “o racismo foi inventado pela branquitude, que deve responder por ele”.

Assim, a escola se coloca como espaço de formação cidadã, onde o incômodo diante das desigualdades não é silenciado, e sim transformado em ação, responsabilidade e compromisso.

Datas que reafirmam o que é vivido o ano todo

Se no Júlio Verne o antirracismo é cotidiano, as datas especiais deixam de ser “ponto de partida” e se tornam pontos de reafirmação do que já é trabalhado ao longo de todo o ano letivo.

No Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescendente, por exemplo, a escola reforça a presença da cultura africana e afro-brasileira em sua proposta pedagógica, valorizando a potência dessa herança em nossas linguagens, saberes e modos de existir.

Outra data que não passa em vão é o Dia de Nelson Mandela, ocasião propícia para relembrar sua trajetória e a filosofia Ubuntu de compaixão, caridade e respeito ao próximo que ele defendia.

Já o Dia da Consciência Negra é entendido não como uma celebração isolada, mas como um marco para aprofundar reflexões sobre como cada um de nós, estudantes, famílias, educadores, pode contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária. A data funciona como um espelho: que práticas estamos transformando? Que preconceitos estamos enfrentando? Que caminhos ainda precisamos construir juntos?

Um dos exemplos mais significativos dessa postura foi o evento Pérola Negra, realizado em 2024, verdadeira celebração da riqueza e diversidade da cultura afro-brasileira. A programação contou com apresentação de banda, capoeira, literatura, música, pintura e teatro em atividades protagonizadas pelos alunos. Foi um manifesto vivo, centralizando a herança afro pulsante e reconhecida como parte essencial.

O evento também trouxe reflexões pertinentes com a participação do psicólogo Claudio Donizeti dos Santos e da psicopedagoga Vivian Ventura, que abordaram com sensibilidade e rigor temas relacionados à Consciência Negra, ao racismo estrutural e à importância de práticas antirracistas desde a infância.

Representatividade preta como princípio, não como exceção

Falar de antirracismo na escola implica olhar com seriedade para a pergunta: quem ocupa os espaços de fala, decisão, orientação e cuidado? No Júlio Verne, a política antirracista também se concretiza na diversidade nas contratações e no reconhecimento de profissionais negros em posições de referência.

Mais do que preencher um requisito, trata-se de afirmar que pessoas pretas devem ser vistas, ouvidas e valorizadas em toda a sua potência intelectual, pedagógica e humana. Estudantes precisam olhar para a sala dos professores, para a coordenação, para os murais e para as lideranças e perceber que a escola não reproduz o apagamento histórico, e sim, caminha na direção oposta: devolver às pessoas negras o lugar de protagonismo que lhes foi negado.

Um projeto antirracista, um ensino humanista

“Ao combater o racismo, combatemos também a ideia de que algumas vidas valem mais do que outras. Ao assumir uma política antirracista, nosso colégio reafirma o próprio sentido do que entende por educação: um projeto que forma sujeitos íntegros, críticos, éticos e sensíveis às dores e às lutas do outro. E é nesse horizonte que a política antirracista se encontra com o ensino humanista e humanitário que orienta a escola.” – Alexandre Medeiros, diretor geral do Centro de Estudos Júlio Verne.

Enfim, ser antirracista não é um discurso, é uma prática. E, como nos lembra o pequeno manual citado no início deste texto e que tem inspirado tantas mudanças no país, essa prática é urgente e cotidiana. Uma aula, um projeto, um mural, uma contratação, um evento, tudo é uma oportunidade de reafirmar que uma escola verdadeiramente comprometida com o futuro é, necessariamente, uma escola antirracista.

POLÍTICA ANTIRRACISTA DO JÚLIO VERNE CENTRO DE ESTUDOS

1. Princípios norteadores

O Júlio Verne Centro de Estudos assume publicamente seu compromisso com uma política antirracista que atravessa todas as dimensões da vida escolar. Essa política se fundamenta nos seguintes princípios:

  1. Reconhecimento do racismo estrutural na sociedade brasileira e de seus impactos na educação, nas oportunidades e nas relações sociais.
  2. Responsabilidade compartilhada, com ênfase no papel da branquitude em reconhecer seus privilégios e atuar ativamente na transformação das estruturas racistas.
  3. Valorização da identidade negra, de sua história, saberes, estéticas, produções intelectuais, culturais e políticas.
  4. Educação para os direitos humanos, com foco na igualdade racial, na justiça social e na dignidade de todas as pessoas.
  5. Representatividade e inclusão, garantindo presença efetiva e valorizada de pessoas negras nos diferentes espaços da escola, sobretudo em posições de liderança, referência e tomada de decisão.

2. Objetivos da política antirracista

A política antirracista do Júlio Verne tem como objetivos:

  • Combater práticas, discursos e estruturas racistas dentro do ambiente escolar, sejam elas explícitas ou sutis.
  • Assegurar um ambiente seguro, acolhedor e respeitoso para estudantes, famílias e profissionais negros.
  • Promover uma formação crítica que permita aos estudantes compreender e enfrentar o racismo em suas múltiplas formas.
  • Integrar a perspectiva antirracista ao currículo, aos projetos pedagógicos, à gestão e às relações institucionais.
  • Fortalecer o diálogo contínuo com famílias e comunidade na construção de uma cultura escolar antirracista.

3. Representatividade e diversidade nas equipes

Reconhecendo que não existe coerência em uma política antirracista sem presença efetiva de pessoas negras em espaços de poder e referência, o colégio assume os seguintes compromissos:

  • Buscar ativamente diversidade racial nas contratações, considerando pessoas negras em todos os setores
  • Promover condições para que profissionais negros tenham trajetórias de desenvolvimento e reconhecimento, com acesso a formações e oportunidades de liderança 
  • Garantir que a representatividade preta se reflita no cotidiano da escola, de modo que estudantes se reconheçam e se vejam representados nas figuras de autoridade, cuidado e referência acadêmica.

4. Currículo e práticas pedagógicas

A perspectiva antirracista é incorporada ao currículo e às práticas pedagógicas por meio de:

  • Inclusão sistemática da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nos componentes curriculares
  • Valorização de autores, pensadores, cientistas, artistas e lideranças negras nas diferentes áreas do conhecimento.
  • Desenvolvimento de projetos permanentes que abordem identidade, pertencimento, discriminação racial, privilégios e resistência.
  • Utilização de metodologias que favoreçam o diálogo, a escuta ativa e o enfrentamento de preconceitos, promovendo o pensamento crítico e empático.

5. Cultura escolar, artes e espaços simbólicos

A política antirracista se expressa também nos espaços físicos e simbólicos do colégio:

  • Manutenção de espaço dedicado à memória e homenagem de personalidades negras que lutaram pela igualdade racial
  • Incorporação de linguagens artísticas originadas e protagonizadas por pessoas negras em atividades extracurriculares, apresentações e eventos institucionais.
  • Promoção de projetos e evento que utilizem a arte como ferramenta de reflexão sobre a história da população negra, o racismo, a resistência e as lutas por direitos.
  • Celebração de datas como o Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescendente e o Dia da Consciência Negra como momentos de aprofundamento, visibilidade e fortalecimento de processos que já são vividos no dia a dia escolar.

8. Prevenção, escuta e enfrentamento de situações de racismo

O colégio estabelece procedimentos claros para prevenir e enfrentar situações de racismo:

  • Reafirmação informativa de que atitudes racistas não são toleradas no ambiente escolar.
  • Escuta ativa para que estudantes, famílias e profissionais possam relatar situações de discriminação racial.
  • Análise cuidadosa de cada caso, registro das ocorrências e encaminhamentos pedagógicos e institucionais adequados.

9. Monitoramento, avaliação e compromisso contínuo

Por entender que uma política antirracista é processo e não ponto de chegada, o Júlio Verne Centro de Estudos:

  • Avalia periodicamente suas ações antirracistas, projetos e formações, promovendo ajustes sempre que necessário.
  • Mantém espaços de escuta e participação da comunidade escolar para aprimorar práticas e políticas voltadas à igualdade racial.
  • Assume o compromisso de reafirmar sua posição como escola que não se contenta em “não ser racista”, mas que se dispõe a agir, de forma concreta e contínua, para construir um ambiente verdadeiramente antirracista, humanista e humanitário.

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