A revista Coepta, periódico acadêmico ligado à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade de Barcelona, publicou em sua nova edição quatro artigos desenvolvidos por alunos do Júlio Verne Centro de Estudos , como resultado do projeto Jovens Pesquisadores. Orientados por professores da escola, os estudantes analisaram fontes históricas e documentos da imprensa brasileira, produzindo pesquisas com temas curiosos, relevantes e provocadores.
Os trabalhos percorrem áreas como publicidade, história das marcas, imprensa, linguagem e racismo, a partir de investigações realizadas em acervos da Biblioteca Nacional. A seguir, um panorama dos artigos publicados.
Publicidade ousada no século XIX: quando o anúncio se disfarçava de notícia
Um dos artigos investiga como a propaganda de uma marca era feita no final do século XIX, muito antes do marketing moderno. Em “Humor & Marketing: Vital Fernandes Fam, o gênio da publicidade no Império”, a aluna Bárbara Melo analisa a atuação da Estrella, uma alfaiataria que ousou como poucas em sua época.
Fundada pelo empresário português Vital Fernandes Fam, a empresa produzia anúncios que se confundiam com textos jornalísticos. Em vez de apresentar diretamente seus produtos, ela se apropriava de fatos do cotidiano, narrados como notícias ou comunicados oficiais. Apenas no final do texto, de forma humorística, o leitor percebia tratar-se de uma propaganda.
Um exemplo analisado no artigo é o anúncio publicado às vésperas da Abolição da Escravatura, em 1888. Intitulado “Estão livres os escravos no Brazil”, o texto começa como uma notícia sobre a Lei Áurea e, ao final, revela-se uma peça publicitária que compara o impacto histórico do acontecimento aos preços das roupas da alfaiataria. O estudo mostra como essa estratégia, hoje comparável aos informes publicitários, era ainda mais radical naquele contexto e discute os limites éticos do humor na publicidade.
Marcas centenárias em foco: Gillette e Guaraná
Outro artigo amplia o olhar sobre estratégias de divulgação no início do século XX. Em “Gillette e Guaraná – explorando os primórdios de duas marcas centenárias”, o aluno Matheus de Sá analisa a construção da imagem de duas marcas que atravessaram gerações.
No caso da Gillette, o estudo destaca a rápida consolidação no Brasil, associando inovação tecnológica à comunicação direta com o consumidor. Já a pesquisa sobre o Guaraná Champagne mostra como a bebida construiu sua identidade a partir de elementos nacionais, como a Amazônia, a figura do indígena e a ideia de energia natural. O artigo evidencia como essas marcas já compreendiam a força da publicidade na construção de hábitos de consumo e identidades culturais.
Racismo na imprensa: um passado que insiste em se repetir
Outro trabalho aborda um tema duro e necessário: a permanência do racismo no discurso jornalístico brasileiro. Em “Preconceito ‘de cor’: um asqueroso caso de racismo em nossa imprensa (1887–1928)”, Isabella Vieira e Thor Corrêa Neto investigam como um conto profundamente racista foi reproduzido por décadas em jornais e revistas do país.
A pesquisa revela como o racismo era naturalizado na imprensa, muitas vezes apresentado em tom de humor ou curiosidade, sem questionamento ético. Ao recuperar esse material histórico, os autores estabelecem um diálogo com o presente e reforçam a importância de uma educação antirracista, capaz de formar leitores críticos.
Linguagem, expressões populares e preconceito
E, por último, mais um artigo que se debruça sobre o preconceito presente em expressões populares, analisando de forma detalhada a relação entre cores, linguagem e significados sociais. Assinado pela aluna Rafaela Cordeiro Silva, o texto “Cores em expressões populares e sua datação”reúne expressões consagradas do cotidiano brasileiro, como “amarelar”, “verde de inveja”, “vermelho de vergonha” e “a coisa está preta”, e investiga sua origem histórica e datação, a partir de pesquisas feitas na Biblioteca Nacional. Ao percorrer registros da imprensa dos séculos XIX e XX, o artigo revela como essas expressões se consolidaram ao longo do tempo e como, em muitos casos, carregam valores simbólicos e preconceitos naturalizados, convidando o leitor a refletir sobre o peso cultural e histórico da linguagem que usamos diariamente.
Pesquisa e pensamento crítico desde a educação básica
O conjunto dos quatro artigos revela a potência do trabalho desenvolvido no Júlio Verne Centro de Estudos. Da ousadia publicitária do século XIX às discussões sobre racismo, marcas e linguagem, os alunos demonstram que pesquisar é também questionar o presente a partir do passado, ampliando repertórios e construindo um olhar crítico sobre o mundo.
O trabalho dos alunos passou pela orientação do diretor acadêmico e professor Alexandre Medeiros e dos professores Everaldo Rodrigues Morais, Giuliana Cinezi e Gabriel Santos Menezes.

